OLHANDO COM O CORAÇÃO...
(extraída da do meu livro: Crônicas sociais)
Bairro luxuoso, próximo a uma linda e bem cuidada praça e ambiente tranquilo. Em direção a uma suntuosa mansão, mulheres "alta-classe", bem trajadas, conduzindo, cada uma, pela guia, seu cãozinho de estimação. A maioria da raça Poodle Toy e de outras raças de pelos longos, vestiam roupas à moda canina: elegantes, coloridas, modernas e de fino acabamento, bem ao gosto de suas donas. Todo esse "frisson" se destinava à festa de aniversário de Cherri. Ela vestia corpete e um saiote de tuly rosa-choque, laçarotes próximos às orelhas e ostentava uma rica e deslumbrante coleira de brilhantes. Estava "linda de morrer"!.
Os convidados passam lenta e ordeiramente pela lateral da casa em direção ao salão de festas, especialmente construido para cães. Muitos enfeites. Via-se mesas cobertas com tecidos coloridos, sobre elas dezenas de pratos contendo guloseimas ao sabor canino. A um canto, lá estava ele: O BOLO e, claro, com uma escultura em glacê, numa pose bem sujestiva e elegante, retratava com fidelidade: a bela Cherri. Todos a postos, em seus devidos lugares pre-estabelecidos, cada madame coloca na cabeça do seu pupilo o tradicional chapeuzinho e cantam os parabéns. Um luxo só!. Poderosa!...
E a festa "rola" tarde afora. A noite vai chegando e, com ela o fim da festa. Todos os convidados se preparam para deixar o local. Os cães manifestavam a sua satisfação e alegria latindo e abanando suas caudas.
Na praça em frente, agora iluminada por lâmpadas de neon, surge a silhueta de uma senhora já meio grisalha, compleição franzina, carregando uma sacola em cada mão. Mal ela chega e, um bando de gatos de todas as cores e tamanhos, chegando de todos lados, vêm ao seu encontro, ao mesmo tempo, alegres e famintos. Ela os alimenta como faz todos os dias, gastando quase toda a sua aposentadoria. É uma pessoa de bom coração e afeicionada aos bichanos. Está feliz.
Enquanto isso, em uma rua da periferia, u'a mãe abandona seu bebê recém-nascido numa caçamba de lixo.
O ser humano parece estar perdendo essa "parada", a parada da sobrevivência.
Sendo realista, acho que nem tanto aos cães nem tão pouco aos homens...
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